quinta-feira, 10 de março de 2011

Um conto qualquer...


Era uma tarde escura, o sol oculto entre tantas nuvens.
Ela acabara de chegar de viagem, de onde acabou se adaptando ao clima frio, aquela sensação, naquele momento, apesar do vento, era boa.
Vestiu-se confortavelmente e ainda assim bem arrumadaa, se cobria com um vestido estampado, um bolero e calçava uma rasteira nos pés.
O tempo ia esfriando, de uma forma que ela, anestesiada, parecia nem sentir.
Andava lentamente, como se seus pés deslizassem no chão, o vento balançava seus cabelos cobrindo seu rosto, que por sua vez, destacavam olhos distantes, um pouco fora de seu planeta.
Ela andava aparentemente sem destino, embora tivesse coisas a fazer, entrou em um mercado sem ter o que comprar, era apenas uma vontade boba de olhar sobre as prateleiras, um hábito que ela havia adquirido durante seus quatro anos de convivência com Lucas.
Ela andava pelos corredores sem perceber que pouco a pouco, começava a garoar. Era um chuvisco fininho, que aumentava a cada curva que ela fazia dentro daquele singelo mercadinho.
Surpreendeu-se pouco com a chuva caindo, mas depois de tantas noites dançadas na chuva, caminhar ali poderia ser até relaxante, e assim ela andou.
sorrisos se formavam em sua boca, despertando uma louca vontade de se desvendar o que passava naquela cabeçinha, coberta por negros e compridos fios ondulados. O espanto que tivera tido ao se deparar com a chuva, não foi a metade do que sentiu ao se deparar com aquele homem passando á sua frente. Ele vestia bermuda e camiseta, segurava um guarda-chuva quase que tão preto quanto seus olhos, que se mostraram um tanto surpresos também.
Por uma fração de segundos, que mais pareceram horas, eles se olharam.
Meio sem jeito ele ameaçou falar algo que não saia.
- Oi Lucas! - Ela apressou-se em dizer.
- Oi Ana.
Aqueles olhares impenetrantes, que antes pareciam só pertencerem um ao outro, agora faziam questão de se evitarem.
Sabe-se lá, o que aqueles olhos iriam demonstrar!

- Toma, fica com guarda-chuva! - Ele ofereceu gentilmente.
- Não precisa. Estou bem assim.
- Ah Ana! você nao muda mesmo! Essa chuva vai te fazer mal. Aceita, para de pirraça.
A verdade, era que nenhum dos dois havia mudado, até o modo de se preocupar, de criticar, o modo de andar, tudo... era o mesmo!
- Lucas, nao precisa. Essa chuva não me afeta mais. Eu já estou molhada. Foi falta de atenção minha, nao ter percebido que choveria.
- Você nunca deu atenção á essas coisas!
Cada frase que ele dizia parecia querer tocar em um passado não tão distante. Era como se Lucas, fizesse questão de enfatizar os defeitos que Ana possuia. Como se quisesse confirmar a si próprios seus motivos.
Sem perceber eles caminharam juntos, andavam numa mesma sintonia, trocavam poucas palavras, e o som de suas vozes ia diminuindo na mesma velocidade que a chuva deixava de cair.
Ana passou a mão pelos cabelos, já abundamente molhados pela chuva, olhou para ele com um leve sorriso timido dizendo: "Parece que a chuva passou". E o viu concordar fechando o guarda-chuva.
Numa esquina próxima, Lucas pergunta curioso, se o destino de Ana era sua casa. Ela responde que sim com um gesto de cabeça. Em seguida acrescenta precisar passar em outro lugar primeiro.
Mais alguns minutos em silêncio...
- Você também está indo para casa ?
- Agora não. Coincidentemente, eu vou cortar o cabelo.
Era realmente uma grande coincidência, que como de costume, ele fosse cortar o cabelo próximo ao local que Ana precisaria passar, antes de seguir para casa.
Eles andaram cerca de 3 quarteirões juntos, sem trocar mais uma palavra. Por mais que quisessem, parecia não caber mais assunto entre eles.
Seus olhos buscavam involuntáriamente um ao outro, enquanto forçavam-se para não se encararem.
Havia tantas perguntas a serem feitas, tantas dúvidas, tantas mágoas e lágrimas escondidas naqueles 2 pares de olhos.
Passaram-se exatos 3 minutos, quando um leve toque, por uma mão um tanto aspera, toca os braços de Ana.
- Bruno?! - Ela diz num tom assustado.
- Oi! Tudo bom ?
- É, tá, tudo... Tudo bem sim! E voce? - Pergunta Ana, claramente sem jeito entre aqueles dois homens.
- Não gostou da surpresa? - Pergunta Bruno, aparentemente decepcionado com sua reação.
- Claro! Claro que eu gostei. Só.. Não esperava!
- Eu tentei te ligar, mas voce nao atendeu o telefone, resolvi te surpreender, já que o combinado foi esse!
Ana precisou de alguns minutos para conseguir colocar a cabeça em ordem. Foi quando percebeu que nao era a unica perdida naquela cena.
- Desculpa. Bruno, esse é o Lucas!
Ambos se cumprimentaram, quase que por obrigação. O desgosto tomou conta da face de Bruno. Era facil saber quem era o Lucas depois daquela situação.
- Então VOCÊ é o Lucas?! - Perguntou Bruno, num tom ameaçador.
- Para com isso Bruno! - Ana se apressou em dizer.
Lucas a fitava com uma certa curiosidade no olhar.
Quem seria então aquele homem? Por que ele falara seu nome naquele tom, como se parecesse conhecê-lo. Por alguns instantes se sentira incomodado e até um pouco intimidado àquela circunstância.
Ana por sua vez nao sabia o que fazer. Seu coração acelerava cada vez mais, suas pernas tremiam, era quase que impossivel descrever tudo que ela sentira.
- Ana, eu estou atrapalhando alguma coisa? Se eu estiver posso ir embora!
- Não Bruno, tudo bem. Não quero que você vá embora. Eu só fiquei realmente surpresa, nada mais. Você nem tem o que atrapalhar! - Ana usou de um tom carinhoso ao dizer isto.
Lucas demonstrava um ar um pouco triste, era perceptível, que a relação entre Ana e Bruno ia além de uma amizade, o jeito dele se reportar a ela, a forma carinhosa como ela havia querido que ele permanecesse ali. Lucas só nao conseguia entender o porquê de todo o desconcerto de Ana ao ver Bruno. E por mais que se sentisse deslocado, parado frente á eles dois, algo prendia Lucas a isso. Era como se seus pés estivessem grampeados ao chão.
De repente, sem sequer saber como, Ana se depara com suas mãos enlaçadas nas mãos de Bruno. Sua surpresa só nao foi maior que a de Lucas:
- Desculpa eu... Acho que eu vou indo. Parece que você já arrumou uma companhia!
- É! Está em boas mãos! - Ironizou Bruno.
- Eu espero que esteja mesmo. - Disse lucas, retirando-se aos poucos visivelmente magoado.
- A gente se esbarra qualquer hora! - Respondeu Ana, sem ter muito o que comentar.
Seu coração sentia-se cada vez mais apertado. Por que Lucas tivera tido aquela atitude? Será que ele havia se importado por tê-la visto com outro ?! Já tinha se passado tanto tempo desde o dia que Ana ficou impedida de chamar Lucas de 'amor'. Ela já havia caminhado por tantos corredores de mercado sem companhia, enquanto Lucas sorria todos os dias para outra mulher, cujo nome nã há porque ser revelado. Já faziam meses que Ana não o via mais. Por que raio de motivo ela precisava tê-lo visto justo hoje? E o que estaria Bruno a fazer ali, bem naquele momento? E por que sua cabeça se preocupava tanto com isso, se ela dizia não mais ama-lo com tanta certeza?
Talvez fosse uma certeza falsa, talvez seu coração ainda fosse pertencente ao mesmo dono, talvez Lucas ainda sentisse algo por ela.
Um dia quem sabe, eles se esbarrem novamente num dia de chuva, e ela possa responder a essas perguntas. Por hoje, era melhor ela continuar o que estava fazendo nos últimos meses... Seguindo a sua vida!
E a chuva tornou a cair, molhando um beijo que Bruno deu em seus lábios.

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